Meu Tio Calazans

Publicado em 08/07/2024 as 14:24

Tive muita sorte na vida. Nasci em uma casa de classe média alta, com uma mãe, Dona Susete, uma estanciana de raiz, orgulhosa de sua terra e apaixonada pelos cheiros, sabores e ares da Cidade Jardim, e um pai, Seu Irineu, um homem trabalhador, empreendedor e atento a todos os movimentos de sua cidade natal, Aracaju. Meus avós maternos, figuras presentes na construção da minha identidade, José Alves (Dedé Sombrinha) e Dona Marocas, grande conhecedora dos temperos estancianos, eram aulas vivas da nossa identidade interiorana. Meus avós paternos eram um casal muito diferente um do outro. Meu avô José Domingues, um rico comerciante, meio rude, adorava uma boemia, mas quase nunca demonstrava carinho ou afeto. Minha avó América, o oposto, era uma dama francesa, tocava piano, falava inglês, inteligente, elegante e muito bonita. Eu era apaixonado por ela. Minha bisavó Noemi, descendente de holandeses, era minha filósofa de plantão; herdei muito dela, na alegria, no sarcasmo e na vontade de viver e contribuir. Mas foi meu tio-avô José Calazans Brandão da Silva que me moldou na defesa da minha terra e da cultura sergipana.

José Calazans, um homem determinado e importante na história deste estado e do estado vizinho, a Bahia. Nascido em 14 de julho de 1915, esta semana estaria fazendo 109 anos se vivo fosse. Filho de Irineu Ferreira da Silva e Noemi Brandão da Silva, meu tio-avô, meu padrinho de batismo e meu professor da vida cultural de Sergipe. Foi com ele que me apaixonei pela cultura popular. Foi das nossas conversas que entendi o sentido da palavra sergipanismo, o que hoje chamamos de sergipanidade. Foi com ele que conheci Bilina, Lalinha, Seu Oscar, Dona Lourdes, Mestre Deca, Laranjeiras e sua rica cultura. José Calazans me fez entender o que é ser sergipano retinto.

José Calazans fez seu curso secundário no Colégio Atheneu Sergipense e bacharelado em Direito pela Universidade de Direito da Bahia. Também frequentou a Escola Superior de Guerra e foi professor catedrático de História Moderna e Contemporânea da Faculdade de Filosofia da Bahia. Na UFBA, foi diretor do Departamento Social de Vida Universitária, vice-diretor da Faculdade de Filosofia, professor adjunto de Antropologia, chefe do Departamento de História, diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas e vice-reitor. Foi imortal e presidente da Academia de Letras da Bahia, membro do Conselho Estadual de Cultura da Bahia, membro e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, da Bahia e de São Paulo, e um dos criadores do Encontro Cultural de Laranjeiras. Além disso, foi o maior historiador sobre Canudos e Antônio Conselheiro.

Mas nas minhas vivências com ele, era o meu tio Calazans. Homem bonito, grande, de olhos bem azuis e com uma fala que a gente não queria que acabasse. Além de ser um bom ouvinte e muito brincalhão. Adorava ouvir suas histórias e seus ensinamentos. Foi nas nossas conversas que ouvi falar sobre grandes sergipanos como Tobias Barreto, Sílvio Romero, Felisbelo Freire, Carvalho Lima Júnior, João Pereira Barreto, padre João de Matos, Manuel dos Passos de Oliveira Teles, Elias Montalvão, Rafael Montalvão, Gervásio Prata, Ivo do Prado. Foi com Calazans que conheci Luiz Antônio Barreto, Aglaé D’Avila Fontes, Beatriz Gois, Jackson da Silva Lima, Fernando Soutello, Bráulio do Nascimento, Osvaldo Trigueiro, Theo Brandão. Tornei-me amigo e aluno de vários desses nomes e, o mais importante, aprendi com meu querido tio a ser um amante da nossa cultura.

Com José Calazans que entendi a luta dos sergipanos por sua independência e, principalmente, por sua emancipação. Foi ele que me apresentou as provas da verdade dos limites do nosso estado. Ele me contou que Freire Ribeiro, Ivo do Prado e outros foram os primeiros a estudar esses limites, dizendo: “Meu sobrinho, não conseguiremos reverter tal situação, mas esses homens e seus estudos contribuíram e muito com a historiografia de Sergipe.” Em um dos seus livros, ele escreveu: “Não seria possível recompor a história política, religiosa, econômica, territorial e administrativa da Capitania de Sergipe, sem o conhecimento de tudo quanto se escreveu a respeito de um problema que apaixonou os sergipanos”.

Entre os inúmeros livros, textos e estudos de José Calazans, destaco: O Ciclo Folclórico do Bom Jesus Conselheiro, Cachaça Moça Branca, Aracaju: Contribuição à História da Capital de Sergipe, Estado-Maior de Antônio Conselheiro, No Tempo de Antônio Conselheiro, Canudos na Literatura de Cordel.

E neste dia 8 de julho, quando comemoramos nossos 204 anos de emancipação, deixo aqui minha homenagem e meu agradecimento como sergipano ao historiador José Calazans Brandão da Silva por seu legado e dedicação à sua terra natal. Ao meu tio Calazans, minha gratidão e amor eterno. A minha promessa de tentar defender tudo que me ensinou: o respeito, a paixão por nossa história, cultura e identidade, sigo sempre com sua presença no meu coração e pensamento. Viva Sergipe, Viva Calazans.

 

*Neu Fontes, cantor e compositor. *Matéria publicada no blog neufontes.com.br